Uma pessoa sempre em busca do novo, assim o conhecimento é a janela de onde vislumbro o mundo.

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barra do garças, mt, Brazil
Acadêmico de Geografia UFMT CUA.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012



7 de setembro

       As comemorações neste dia são um retrato de uma sociedade que ainda dispõe de tempo para sonhar! Sonhar com dias melhores que ontem a presidenta Dilma nos fez promessas, mesmo vazias mas fez, que os dias vindouros serão melhores. Energia mais barata, e consequentemente produtos mais baratos e com potencialidade de concorrência com os produtos externos. Assim quase 200 milhões de brasileiros foram as ruas para comemorar a nossa "liberdade" política de Portugal. Mas a nossa liberdade foi condicionada com um alto preço: a descendência dos portugueses, não coloco aqui os cidadãos portugueses, mas a herança política de exploração e uma aristocracia mais preocupada em acumular vantagens em detrimento da vontade geral. Desta forma somos refém de uma política que é incapaz de resolver os problemas sociais e econômicos de nossa nação.
     Quando queremos enaltecer a "Pátria", somos imbuídos a reverenciar uma "mãe", que esquece da maioria dos filhos e aquece uma minoria, que não precisa da proteção de uma mãe, os menos favorecidos, aliá estes são maioria, carece desta proteção que em geral é negada. A mãe Pátria é uma mãe sem escrúpulo e suas decisões em geral é parcial, se ela fosse julgada pelo ECA, teria a guarda de seus filhos negada. Os filhos ricos recebem incentivos fiscais e financeiros para sua autopromoção, enquanto os filhos pobres recebem bolsa esmola para não morrer de fome e assim manter uma imagem de maior programa de divisão de renda social do mundo. Uma mãe que usa a situação social de seus filhos para se promover com suas amigas é no mínimo indigna de respeito. A mãe Pátria é cruel com seus filhos pobres, deixa os filhos ricos explorarem os pobres e não faz nada, nem chama a atenção, talvez seja porque o ECA proíbe a punição severa é que a mãe usa a vista grossa. 
     Como posso comemorar a liberdade se esta não diz nada, e é apenas uma palavra vazia de significado?Se minha mãe cuidasse melhor de meus irmãos e fosse isônoma em suas decisões, caberia uma comemoração e motivos de festejar a data. Mas com este currículo minha mãe está sem moral comigo. Há, eu me considero um cara altamente patriótico, mas contudo racional!





sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

GEOPOLÍTICA

TERÁ O CONTEXTO DA ÉPOCA INFLUENCIADO MACKINDER EM SUAS TEORIAS?
Heli Alves de Sousa[1]
Magdiel Martins Ramos[2]
Gean Paulo Passos de Souza[3]
RESUMO
A geopolítica é o estudo das estratégias usando o conhecimento da geografia política. Esta assertiva coloca em evidência o controle mundial por parte de algumas nações. A filosofia do “destino manifesto, pregado pelo EUA, tem levado o mundo a uma busca incessante ao controle mundial. Este controle parte do pressuposto que as nações “ricas” é que detém este comando, tirando daí o argumento que nações menores tem que se submeter às mais ricas. Com esta filosofia, no século passado, muitos estudiosos tem buscado entender como uma nação pode se tornar uma potência. Entre estes estudiosos estão o americano Mahan e o britânico Mackinder, que se divergiam entre si como seria o modo do domínio mundial. E é baseado neste possível controle do mundo que este texto tem seu direcionamento.

Palavras chave: Geopolítica. Domínio. Mackinder.


INTRODUÇÃO
  A exposição de Mackinder na Royal Geographical Society, em 25 de janeiro de 1904 trouxe ao mundo mais um grande geopolítico. Suas Idéias ao contrário que a maioria esperava, contrariava a hegemonia marítima da poderosa Inglaterra. As teses levantadas por este geógrafo e adido britânico, foram recebidas com ressalvas e não com poucas críticas. Mas inegavelmente estava posta uma das teorias sobre o poder mundial, que atravessaria séculos com sua genialidade e ineditismo que nunca foi suplantada.
A sua exposição de como o poder terrestre poderia se alastrar no mundo se baseou no contexto histórico, para a sustentação de suas teses. Como um bom conhecedor da geografia da região, dá um caráter determinista em suas idéias.
Este texto busca a explanação das idéias de Mackinder no contexto geopolítico da época, procurando entender até que ponto os acontecimentos do mundo de então tenha influenciado no desenvolvimento de suas idéias. Para tanto buscamos na literatura disponível os levantamentos de dados para um entendimento dos n motivos da ruptura do discurso dominante da época, o poder marítimo em mão dos britânicos com uma forte tendência de passar para as mão dos americanos. Talvez seja esta oposição a Mahan, que Mackinder se esmera em desenvolver esta tese contraditória para a sua época. Esta dicotomia de pensamento norteará o nosso texto como forma de opor e suscitar discussão sobre o domínio comercial e político do mundo.


MACKINDER E MAHAN

A teoria do poder terrestre é uma clara concorrência pela hegemonia mundial entre grandes potências, é claro. Pode-se resumir a uma rivalidade histórica entre dois pólos antagônico.
Talvez a admiração da política marinha da Inglaterra fez de Mahan um grande pensador estrategista de sua época. Para ele os oceanos são como um grande espaço social e político, onde as nações utilizando seu poder bélico se estabelecia frente às novas economias da época. Para ele, as vias navegáveis dos continentes estavam a serviço das nações como ramais que ligavam a uma grande estrada que é o oceano. Este domínio dos oceanos, que ele define como poder marítimo, tinha que ser enfrentado pelos Estados Unidos como uma saída para sua perseguição a uma grande potência mundial. Para Mahan, o fato de a Inglaterra ser uma ilha isto favorecia a sua potencialidade marinha. A posição geográfica no globo favorecia a Inglaterra, mas que não acontecia o mesmo com a França. Diante destas idéias, Mahan, afirma que para os EUA ser uma grande potência teria que construir um canal que ligasse o Atlântico ao Pacífico. Esta afirmação se devia aos estudos feitos por ele onde conclui que o formato de uma península contribuiria para a sua conquista ao titulo de potência marítima. As bases militares no pacífico e no caribe, dava as EUA um caráter de domínio dos mares do mundo. Esta visão de domínio do mercado marítimo com uma conformação com a marinha de guerra devia ao fato do comércio americano ter se expandido consideravelmente, segundo Mahan. Logo para este estrategista americano, uma malha viária com as suas hidrovias com interligações com o oceano dava uma sustentação para todo o poderio marítimo.
Os pensamento de Mackinder estava ligados a uma conformação do determinismo geográfico de Ratzel. Uma nação em uma área onde não havia um acesso ao oceano, mas que toda esta extensão de terras poderia congregar povos que durante longos anos sempre infringia os povos da Europa ocidental. Segundo o autor esta grande massa de terra que ao longo do tempo histórico sempre buscava uma oportunidade para impor sua forma de vida, estava chegando um tempo em que este domínio se tornaria realidade. As idéias de Mackinder eram necessárias, e fazia sentido o medo que este britânico com visões de futuro tinha para prever uma ameaça ao poderio instalado, que é o poder marítimo. O pensamento de Mackinder que pode ser expresso em seu papper em 1904 deixa claro que o poder terrestre não pode ser compreendido só como um conjunto de idéias geopolíticas. No conjunto do arcabouço da teoria, vemos um levantamento de uma concepção histórico-geográfico que serviu como delineamento de suas idéias geopolíticas. Nisto podemos entender que, para ele, o mundo era um sistema político fechado, onde poderia desenvolver estratégias de Estado. Para este raciocínio ele cita que a era colombiana chegara ao fim, fato explicado pelo sistema internacional da época estava fechado e no qual os principais fatos da política e da economia mundial se ligavam independetemente da distância. Parece que Mackinder falava de uma ilha mundial vendo que a globalização tornaria o mundo uno em si. Para nós hoje, isto é empirismo puro, mas na época de Mackinder era uma teoria intelectual revolucionária.
O fato é que o discurso geopolítico da época não concordava com as exposições, e que ele estava se tornando um visionário para os intelectuais da época. O poder terrestre se contrapondo com o poder marítimo, era uma forma de alertar as principais potências para a possibilidade de uma junção de duas aspirantes a potencia mundial. No caso Rússia e Alemanha. Para Mackinder, a Rússia representava para o mundo a que a Alemanha representava para a Europa. Isto posto a sua comunhão seria o domínio da ilha mundial


AS IDÉIAS DE MACKINDER

Mackinder pronunciou em 1904, uma conferência na Real Sociedade Geográfica de Londres, quando defendeu a tese de que o controle dos mares não mais representava a chave do poderio das nações marítimas. Na avaliação de Mackinder, a supremacia do poder naval havia chegado ao fim. Durante séculos, países que, devido às suas contingências geográficas, desenvolveram o meio de transporte marítimo, tanto para fins comerciais como para fins de segurança, obtiveram a supremacia nas relações de força no mundo. 
 Na sua teoria Mackinder defendia a existência de uma zona pivô que o preocupava, se a Alemanha e Rússia formassem uma união de Estado, eles controlariam o mundo. A preocupação do geógrafo inglês se baseava no fato de que a Rússia, considerada o pivô geográfico, se situa no Heartland e possui uma massa terrestre contínua, que se estende da Europa Oriental ao Extremo Oriente, território riquíssimo em minerais estratégicos e energia que, articulados às potencialidades industriais da Alemanha, tornaria possível a exploração desses recursos em benefício do desenvolvimento e da manutenção do poder militar estratégico.
Mackinder conclui que, dessa forma, o poder naval começaria a ser ameaçado pela emergência do poder terrestre. O Heartland, a massa terrestre representada pela Rússia, era, geograficamente, um território invulnerável ao alcance das potências marítimas. Uma aliança entre Rússia e Alemanha seria, portanto, do ponto de vista estratégico, a articulação entre recursos industriais e recursos naturais e demográficos. Em última instância, essa aliança representaria o domínio do território eurasiático e, segundo o geógrafo inglês, dominar essa região significaria dominar o mundo.
Num contexto geral Mackinder apoiava-se numa visão estratégica global, com o ajuste do equilíbrio de forças e/ou poderes no espaço internacional, no qual seu arcabouço histórico contemporâneo adquirido em seu tempo, fazendo com que suas hipóteses sejam sem duvida uma das mais difundidas se prestando a exames ainda hoje para atestar sua atualidade.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para a geopolítica o estudo tem que ultrapassar a visão superficial, pois a tentativa de domínio está nas articulações políticas e isto nem sempre é perceptível a um olhar superficial. O controle de um canal é uma imposição de um grupo sobre outro. Para Mahan o controle por parte dos britânicos do estreito de Gibraltrar colocava em xeque a potência da França. O controle do canal do panamá estabeleceria os EUA como uma potência mundial. Logo para Mackinder o controle superaria as fases do poder marítimo com o domínio da heartland , com isso ele fala sobre a era tecnológica como meio de superar as barreiras do continente eurosiático. Com isso vemos que Mackinder não era um determinista geográfico, quando dizia que a grande massa de terra favorecia o controle mundial, pois aí temos um caráter possibilista de promover o progresso desta região em questão.


OBRAS CONSULTADAS

COSTA, Wanderley Messias da. Geografia Politica e Geopolitica: Discursos sobre o Território. 2 ed. São Paulo: Edusp, 2010.
MACKINDER, Halford Jonh. O Pivô Geográfico da Hiatória. In Royal Geographical Socienty, 1904. Tradução VASSELAI, Fabrício.


[1] Acadêmico do 6º semestre de Geografia UFMT-CUA
[2] Acadêmico do 6º semestre de Geografia UFMT-CUA
[3] Acadêmico do 6º semestre de Geografia UFMT-CUA

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Geopolitica do Estado Militar Brasileiro

   A grande questão que permeava a vida politica no Brasil nos meados dos anos 60 era justamente o grande território que o Estado Brasileiro tinha que congregar com um único sentimento nacionalista brasileiro. A dispersão dos povos em zonas longínquas era uma fronteira vulnerável às potências que disputavam territórios em plena guerra fria. E é neste cenário que desenvolve no Brasil as políticas territoriais para abarcar, ou fazer presente o Estado, nestas áreas "remotas".
   Se em Ratzel temos um conceito de Estado como "organismo vivo", logo os militares usaram o conceito deste autor para a implementação de suas politicas territoriais. O espaço nas terras brasileiras eram grandes, mas o território se mantinha encolhido, ou resumido, ao eixo Brasília-sul e a costa, faltava a integração do oeste brasileiro.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

HARTSHORNE

A geografia em questão


         Richard Hartshorne foi professor nas universidades de Minnesota e Wisconsim entre 1940-1970, nasceu em Kittanning, estado da Pensilvânia EUA EM 1899 e morreu em 1992. Deixou vários escritos e influenciou muitos geógrafos e continua a influenciar. Dentre as várias obras, uma é a que vamos estudar aqui: Propósitos e Natureza da Geografia, 2º edição da editora HUCITEC: editora da Universidade de São Paulo, 1978. Com a tradução do professor Thomaz Newlands Neto.
         A geografia que teve inicio na França e Alemanha, passa a ter novas escolas com uma visão além mar, isto enriqueceu a forma de pensar e influenciar muitos estudiosos dos assuntos geográficos. Com uma visão bastante abrangente o autor nos mostra os caminhos por onde a Geografia deve trilhar, mas precisamente o objeto que devemos alcançar com esta ciência. O crescimento e a expansão da Geografia mostrou vários equívocos que esta ciência não tinha conhecimento, talvez por ser muito restrita a um grupo de pensadores bitolados a um certo ambiente minimizado por idéias dualistas. Mas o que é o objeto da Geografia? Quais as questões elementares desta ciência? Estas são as perguntas que objetiva a obra em questão.   Segundo o autor estas não são questões novas, elas remontam a gênese desta ciência, o que não é esperado pelo o autor uma concordância por partes de todos os pensadores deste ramo da ciência.
          Esta dificuldade de estabelecer um objeto para a Geografia e a consciência de uma dicotomia dentro do universo intelectual geográfico, leva o autor a conduzir os estudiosos em Geografia a refletir alguns pontos de dificuldades acadêmicas, que diz respeito aos métodos empregados para a produção científica geográfica. Este propósito de estabelecer um paradigma, faz com que o autor remonta aos pais da Geografia e trás a baila a discussão o entendimento do objeto da Geografia. O que é diferenciação de áreas. Dicotomia da ciência geográfica: física e humana. Estas são as questões básicas para a obra onde o autor busca uma análise profunda da compreensão da matéria.
         A questão primeira, entendimento da diferenciação de áreas. Na concepção de Hartshorne, é que região não é algo dado (como para La Blache), mas sim, um contínuo  produto de algo buscado no espaço geográfico, isto é, uma busca das causas nas manifestações humanas no espaço e, sobretudo, nas dinâmicas da natureza, ou ambas. Nisto o autor nos leva a entender que a Geografia não é somente a ciência dos lugares, de uma simples descrição, mas complexa, de uma profundidade que as vezes não tomamos conhecimentos. Os conhecimentos da Geografia partem de uma interdependência dos lugares, e estas conexões forma uma teia que nos fornece dados que com um simples olhar não conseguiríamos enxergar. O obvio é que ninguém consegue apreender todo conhecimento de uma determinada área, mas a relação entre elas, ou a diferenciação delas é um objeto de estudo do geógrafo. Mas segundo o autor, “Quaisquer que sejam os pontos de vista por nós sustentados a respeito da natureza e do âmbito da Geografia, não resta dúvida que todos havemos de concordar que a finalidade dessa disciplina é ampliar o conhecimento da realidade por parte do homem.’ Observe aí que o autor coloca que a Geografia vem para preencher uma vontade do homem em conhecer seu espaço, e neste intuito é impossível ter todo o conhecimento do espaço vivido pelo homem.
          O autor aborda a questão do espaço do homem, onde é o limite deste espaço? Então ele dedica um capitulo todo para entender onde se limita o objeto da Geografia,  é na “Superfície Terrestre” que encontra o homem, e para o autor só existe a ciência porque existe o homem, que é o grande interessado do conhecimento. Mas o termo mundo, que foi pensado como de grande abrangência por Kant e Lehmann, não abarca uma expressão tão abrangente e restrita ao mesmo tempo. Para o autor as grandes diferenças de áreas passam principalmente por uma questão de correlação entre elas. As conexões existentes passam pelo crivo do homem, onde este pode interferir na existência ou não de um relação. Como o meio natural é uma grande fonte de vida onde o homem também é inserido, e isto é uma questão cultural de um lugar que interessa ao homem, passa a fazer parte deste todo,e tudo que afeta este meio natural, afetará o homem. Agora os recursos naturais, são na verdade avaliações culturais daquilo que nos é primordial para a garantia de permanência como os detentores do poder neste meio natural, e isto  é uma questão de sobrevivência, ou então o home estará fadado ao desaparecimento em nossa própria ignorância no afã de permanecer por cima nesta relação de poder. Diante disto o autor coloca em cheque o determinismo da natureza pregado por Ritter. Ora a natureza é um espaço difícil de ser entendido sem a presença do homem. Segundo o autor a Geografia é antropocêntrica. “... até mesmo nas partes desse mundo em que não há homens, é encarado como o mundo dos homens.”
          Portanto conhecimentos produzidos por viajantes, por pessoas que fiseram uma simples descrição, se distinguem do geográfico, porque os simples viajantes tendem a terem olhares verticais, ou seja, óticas de análises viciadas que, perdem elementos importantes e determinantes de conclusão de algo. Estes olhares podem estar carregados de tendências, o qual não pode analisar e conceber o desconhecido aos olhos, conhecimento empírico, somente. Nesse sentido, não sendo bem esclarecidos na busca do real e total, como os viajantes geográficos. Portanto, se distingue pelos seus métodos de análise e perspectiva, como por exemplo, que, por conseguinte, se distingue pela suas técnicas, porque os conhecimentos geográficos dividem as partes para compreender os equilíbrios e desequilíbrios gerais, usando o método da associação e comparação que chega a resultados mais integradores, isto é, amplos e horizontais. Já, os simples viajantes se prendem a metodologia minuciosas que, sem querer, se vêem tradicionais, a saber, sem críticas marcantes com resultados da viagem de estudo, daí são uns coletadores de informações prontas sem nenhuma novidade intelectual.
         
            O autor  revela, ou nos coloca, conceitos elementares para a regionalização, pois ver a necessidade de associar e localizar os espaços numa realidade ideográfica, analisado nas observações dos fenômenos naturais e, sobretudo, sociais nas regiões da superfície terrestre. Contribuindo para a Geografia e seus profissionais, nas suas visões horizontais, amplas, não ficando preso e, por conseguinte, minucioso e intolerante com as contínuas mudanças das aplicações geográficas dentro das variáveis realidades no espaço e tempo, (mesmo no contexto da Geografia Tradicional). Desenvolvendo, nesse sentido, conceitos relevantes sobre “áreas” e de “integrações”. Portanto, com Hatshorne temos a importância de entender a área com possuidora de múltiplos processos integrados, dando-as capacidade de nos colocar informações de caráter infinito, ou melhor, observando que as inter-relações são fontes inesgotáveis. E, que o conjunto de todas as inter-relações possíveis daria o caráter esclarecido da área, porém salientando que, entender todos os sentidos dentro dos contextos das sociabilidades e das interfaces do homem em detrimento da  natureza das inter-relações dos fenômenos, é impossível e cansativo e penoso, logo sendo anticientífico.
        O que Hartshorne nos coloca com relação a dicotomia da Geografia é bastante claro que sua posição é de uma ciência sem uma divisão entre física e humana. Para embasar seus argumentos o autor baseia em vários autores anteriores que versaram sobre o assunto. Seria a Geografia uma expressão máxima da ordem intelectual, representando no mundo das idéias um ornitorrinco?  As formas de ver esta ciência como um desafio para entender o mundo, e neste caso, segundo o autor, na sua afirmação: “ A crosta da terra, que constitui, somente ela, a matéria unitária dotada de real totalidade de organização, é formada de partes inextricavelmente interligadas, não só de terra, ar e água, mas também de plantas, animais e homens; campos, sebes, celeiros e casas; estradas, trens, livros e sons transmitidos pelo rádio. Todos esses aspectos animados e feitos pelo homem são intrincadamente constituídos de vários fragmentos de materiais sólidos, líquidos e gasosos, provenientes de formas inanimadas. Por conseguinte, se subtrairmos desse conjunto o homem e todas as suas obras, o que restará há de ser algo menos do que a totalidade da terra inorgânica. Será uma abstração mental, destituída de coerência na realidade.” Como vimos o autor deixa claro a participação ativa do homem na construção do termo mundo, e para tanto, segundo o autor, não há uma divisão entre Geografia Física e Geografia Humana, a coexistência destas duas versões só consolida a ciência como o espaço geográfico levando em consideração o homem, agente ativo no espaço, um dos responsáveis pelas mudanças na paisagens. Logo com isso o determinismo não entra nesta análise de conceito. Já que neste a natureza determinará a qualidade e modo de vida do individuo homem
        O que será o espaço concebido na Geografia? O que é território? O autor salienta bem estas duas perguntas ao descrever com precisão tênue, a relevância de buscar conceitos, ou mesmo explicações, para a realidade presente. O tempo em Geografia não é uma questão fundamental como para física, para a Geografia o tempo é apenas um pano de fundo para dar respaldo a um entendimento mais complexo de caráter permanente. O que mais intriga os geógrafos é o fato de ter que estudar tempo geológico para entender o caráter de espaços habitado pelo homem. Para Hartshorne o tempo pode ser importante para Geografia para entender, ou delimitar, o espaço de tempo em que se configura o presente, ou um tempo anterior ao estudado, ou ainda a conseqüência que este tem em cima de uma pesquisa para determinar possíveis erros. Este tempo pode e muito confundir alguns geógrafos para um lado perigoso de nossa disciplina, a condição de estudarmos o espaço levando em conta o tempo  histórico do homem, e não o tempo geológico. “ Para determinar as tendências do presente cumpre examinar o curso das mudanças através de um certo período do passado, comumente mais longo do que o exigido para medir as outras características do presente.’ Observe que para o autor parece de pouca importância o que aconteceu a 500 milhões de anos atrás, o que nos mostra é que o meio de entender o presente passa obrigatoriamente com o passado.   

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A política estadual e federal de colonização em Mato Grosso – 1900/1990
 A  Colonização é um  termo  usual para definir políticas publica para a promoção social e a migração influenciada pelo Estado. O Estado de Mato Grosso  foi  povoado com políticas pública de colonização implantada desde o início do século XX. Mas somente nos anos 40 é que houve uma forte demanda para  a povoação do estado com o projeto “Marcha para o Oeste” defendida pelo governo ditatorial de Vargas. Dentro de uma divisão, mesmo que arbitrária, destaco seis agentes principais para a colonização do estado de Mato Grosso. A saber:
1° ESTADO: 1906 com o Serviço de Povoamento do Solo Nacional, houve um incentivo à migração de mão-de-obra de áreas com densidades altas para áreas consideradas “vazias”.  Esta política teve um fracasso notificado pois não estava alicerçado em estrutura de suporte técnico e logístico do Estado, e a economia não era ainda liberal para poder promover uma vantagem a curto prazo para o beneficiário da terra. Fato este que não vingou o programa do governo.
2° ESTADO GETULISTA: 1940, com a criação da Marcha para o Oeste, preocupado em preencher os “espaços vazios” da Amazônia e Centro-Oeste foram criadas em 1943 a Expedição Roncador  Xingú e a Fundação Brasil Central. Ambas  com o objetivo de povoar a região do Vale do Araguaia até o Xingú
3° CONSTITUIÇÃO DE 1946: Para dar um caráter mais social, o que diferia da Lei de Terra de 1850, mas sem  prejudicar os capitalistas, o texto diz: “mediante prévia e justa  indenização em dinheiro”. Mas a contribuição desta lei às colonização de MT, foi a prioridade em fixar o homem na terra.
4° O ESTADO MILITARIZADO: Após  o golpe de 1964 e já com a capital do Brasil no Planalto Central, os militares  definiu as novas regras  para a colonização do oeste  brasileiro.  Sob o patrocínio da Doutrina de Segurança Nacional, o estado foi alvo de obras como a abertura das grandes rodovias federais que cortaram o estado de Mato Grosso, as BRs 163, 364, 158; os grandes projetos de colonização e a necessidade de atrair mão de obra para este imenso território. Estas rodovias tornaram-se grandes eixos norteadores da ocupação da região. À medida que elas avançavam, novas áreas se abriam e renovavam-se as promessas de fertilidade, riqueza, visando atrair a migração. Para a “garantia da segurança nacional”, o exército brasileiro definiu como área de atuação da união 100 km de cada lado da rodovia. Para o Estado de Mato Grosso esta decisão significou um perda no domínio territorial, pois o estado é cortado longitudinal e transversalmente. Ficando apenas com 40% de domínio espacial. Esta política tinha um intento não revelado que era a contenção de movimentos para uma reforma agrária. Os grandes incentivos às grandes empresas necessitava de mão de obra na nova fronteira agrícola, o que tornava o projeto viável.
5° INCRA: O INCRA, representante legal da União, implantou vários projetos durante a vigência militar, a saber:
ü   PAR - Programa de Assentamento Rápido
ü  PAC – Projeto de Ação Conjunta ( Ranchão, Carlinda e Braço Sul)
ü  PEA – Projeto Especial de Assentamento
ü  PA – Projeto de Assentamento
 E também houve um projeto especial chamado Projeto Casulo, destinado aos desempregados de áreas urbanas.
6º COLONIZAÇÃO PARTICULAR: Teve início na década de 70 e prolongou até o fim dos anos 80. Neste período fica bem definido que as razões da colonização no estado era mais a serviço do capital do que social. Grandes empresas com loby em todas as esferas do poder se beneficiavam de vantagem que aos pequenos eram suprimidas.
 Logo com esta exposição fica claro que existe um abismo muito grande entre o progresso social e o interesse financeiro. As  colonizações em toda a história mostra o sucesso de uma classe com a expropriação de outra, isto foi o que aconteceu em nosso estado, com a chegada do “progresso” houve quem ganhou e quem perdeu e isto não é questão de sorte, é questão de objetividade nas políticas públicas.
Texto adaptado a partir do texto de:
MORENO, Gislaene (org). Geografia de Mato Grosso: território, sociedade, ambiente. Cuiabá: Entrelinhas.2005. pgs 52-71
Por Mágdiel Martins Ramos (maio/2011)


segunda-feira, 16 de maio de 2011


Resenha crítica do livro As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano (editora Paz e Terra, 1994, 36ª edição).
José William Vesentini (*)
Publicado inicialmente em 1971, em espanhol, e tendo obtido um sucesso imediato (e tradução para inúmeros idiomas, inclusive o português), este livro do escritor uruguaio Galeano pretende, ao menos na aparência, fazer uma história da América Latina com ênfase na sua constante “exploração” pelas potências imperialistas. Digo na aparência porque de fato não se trata de uma história: não existe qualquer seriedade acadêmica ou científica, qualquer preocupação com as fontes, sua checagem e o confronto com outras sobre o mesmo tópico, nem mesmo qualquer preocupação em dialogar (seja reproduzindo, adaptando, criticando ou modificando) com as idéias dos clássicos que teorizaram a respeito da exploração dos trabalhadores (Marx) ou das “nações oprimidas” (Lênin), e sequer a de ter uma interlocução a sério (sem meramente citar uma ou outra frase descontextualizada) com a ampla e boa bibliografia sobre a história da América Latina que já existia antes da redação desta obra, tais como os trabalhos de Manoel Bomfim, Celso Furtado, Raul Plebish ou Tulio H. Donghi, para mencionar apenas alguns exemplos. É um livro mais de ficção, embora com frequência mencione – quase sempre numa leitura enviesada – determinados episódios verídicos e sempre escolhidos a dedo para comprovar a idéia central do livro. Mas é uma boa ficção jornalística, bem escrita e de leitura agradável, acessível ao público letrado em geral (até mesmo a alunos do ensino básico, daí advindo boa parte da sua enorme popularidade, pois pode ser usada como leitura complementar nas disciplinas história e geografia quando se aborda a América Latina) e no fundo contendo humor ou episódios engraçados (ou melhor, que o Autor torna engraçados pela sua experiência anterior como chargista e jornalista).
A idéia central do livro surge logo nas primeiras linhas:  
Há dois lados na divisão internacional do trabalho: um em que alguns países especializam-se em ganhar, e outro em que se especializaram em perder. Nossa comarca do mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se abalançaram pelo mar e fincaram os dentes em sua garganta. Passaram os séculos, e a América Latina aperfeiçoou suas funções. (...) Mas a região continua trabalhando como um serviçal. Continua existindo a serviço de necessidades alheias, como fonte e reserva de petróleo e ferro, cobre e carne, frutas e café, matérias-primas e alimentos, destinados aos países ricos que ganham, consumindo-os, muito mais do que a América Latina ganha produzindo-os. (...) É a América Latina, a região das veias abertas. Desde o descobrimento até nossos dias, tudo se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano (...) Tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas, ricas em minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos naturais e os recursos humanos. O modo de produção e a estrutura de classes de cada lugar têm sido sucessivamente determinados, de fora, por sua incorporação à engrenagem universal do capitalismo. e a cadeia das dependências sucessivas torna-se infinita, tendo muito mais de dois elos, e por certo também incluindo, dentro da América Latina, a opressão dos países pequenos por seus vizinhos maiores e, dentro das fronteiras de cada país, a exploração que as grandes cidades e os portos exercem sobre suas fontes internas de víveres e mão-de-obra.  (Galeano, pp. 5-6, grifos nossos).
Essa longa citação foi necessária porque resume todo o conteúdo, toda a argumentação do livro. O restante da obra é constituído tão somente por exemplificações variadas dessa idéia central, qual seja, que a América Latina desde que foi ocupada [seria mais apropriado dizer construída, mas esta percepção é complexa demais para o raciocínio simplista de Galeano] pelos europeus no século XVI, sempre foi e continua sendo uma “vítima” da “exploração internacional”, da potência capitalista dominante neste ou naquele momento da história. Mais ainda: como uma reprodução mimética, devido às “elites” internas [nossa classe dominante e ao mesmo tempo dirigente] em conluio com os interesses externos, existiria também aqui uma exploração das regiões mais pobres e baseadas em atividades primárias pelas mais ricas e industrializadas ou que têm por base atividades mercantis. Ou que até mesmo haveria, como o texto afirma explicitamente, uma exploração dos Estados-nações menores pelos maiores [o Autor pensa aqui na “exploração” da Bolívia ou do Paraguai pelo Brasil ou pela Argentina].
Sem dúvida que o leitor minimamente informado e culto logo deve ter percebido que se trata de uma simplificação grotesca e mecanicista de algumas idéias de Caio Prado Júnior, Andé Gunder Frank, Rodolfo Stavenhagen e alguns outros pensadores clássicos desta região do globo, que escreveram sobre o “sentido da colonização” [mas sem a menor pretensão que isso fosse algo inexorável e válido até o presente], sobre o “desenvolvimento do subdesenvolvimento” [isto é, que o desenvolvimento dos países ou regiões ricas se faz, necessariamente, às custas da crescente pobreza nos países ou regiões pobres, um argumento inicialmente de Gunder Frank que ele próprio, após algum tempo, considerou superado ou inadequado] ou sobre o “colonialismo interno” [uma antiga tese, típica dos anos 1960, de Stavenhagen e Pablo G. Casanova, ambos do México, segundo a qual existiriam regiões exploradoras e exploradas dentro dos países subdesenvolvidos]. A partir dessa idéia central, no fundo uma caricatura de algumas obras de pensadores críticos dos anos 1950 ou 60 (os quais, cabe realçar, em muitos casos reviram posteriormente suas teses em confronto com uma nova bibliografia e principalmente com as mudanças na realidade) , Galeano prossegue nas duzentas e tantas páginas do seu livro com ilustrações ou exemplificações que comprovariam essa tese: citações descontextualizadas deste ou daquele autor, deste ou daquele político ou empresário, longas descrições de certos acontecimentos que, dependendo de como são contados, podem ser encaixados no seu ponto de vista, etc. Em suma, essa idéia central é reproduzida ad nauseam no restante do livro de mil maneiras, através de pretensos exemplos históricos, de trechos da fala de políticos ou empresários até mesmo norte-americanos (dando a impressão que eles admitem estarem “explorando” a América Latina), de relatos de massacres perpetrados contra grupos indígenas ou contra toda a população paraguaia (numa reprodução do famoso mito que o Paraguai de Solano López era uma democracia cuja economia crescia enormemente a cada ano de forma independente das potências imperialistas e que estas incentivaram o Brasil, junto com a Argentina e o Uruguai, a arrasar essa “experiência de desenvolvimento autônomo”, exterminando de propósito a maior parte da população daquele país). Um amontoado de idiotices mesmo que alguns episódios propalados no livro tenham de fato ocorrido (tal como o extermínio de inúmeros grupos indígenas), embora sempre vistos de forma desvirtuada pela leitura de Galeano.
Essa interpretação maniqueísta da guerra do Paraguai, por exemplo, é totalmente simplória e até mesmo rasteira. Na verdade, segundo uma historiografia mais recente e crítica, essa guerra teve motivos bem diferentes. O militar e ditador López, por exemplo, foi nomeado presidente vitalício do Paraguai pelo seu pai, também presidente vitalício antes dele. Era um aliado declarado da França de Napoleão III [também uma potência imperialista, que inclusive tentou recolonizar o México impondo ao país um imperador títere, Maximiliano da Áustria], a quem tinha como modelo, que inclusive lhe forneceu armas para a guerra. E na verdade foi ele quem iniciou o conflito – pois antes dos embates tinha um exército mais numeroso e bem armado do que aqueles três países juntos – com vistas a anexar em seu território partes do sul do Brasil e do nordeste da Argentina. Uma boa parte da população paraguaia morreu no conflito? Infelizmente sim, embora o seu número exato seja polêmico e sem dúvida sensivelmente inferior ao anunciado por uma certa bibliografia jornalística e panfletária (no estilo de Júlio J. Chiavenato), cujas exageradas cifras (chegando até a 97% de toda a população masculina do país!) Galeano menciona. Pelo menos em parte, essa alta mortandade foi uma decorrência da obrigatoriedade, imposta por López, de crianças e adolescentes do sexo masculino servirem às forças armadas por ocasião da guerra, sendo que os que se recusavam ou que recuavam quando estavam perdendo alguma batalha eram sumariamente fuzilados pelos próprios soldados paraguaios a mando do ditador (1). Um conceituado historiador que reviu as causas dessa guerra assinalou que ela não foi instigada pela Inglaterra, como alguns (que Galeano repetiu, como sempre de forma caricatural) argumentaram, mas sim por contradições internas dos Estados sul-americanos envolvidos. Teria sido, na interpretação desse historiador (2), uma guerra na qual não existiram “bandidos” nem “mocinhos” e cuja razão última foi a consolidação dos Estados nacionais na região platina, além de Solano López ter tido a pretensão de obter pela força das armas uma saída para o mar. Mas a idealização de López por Galeano chega ao ponto de ele, na pg. 134, censurar o poeta chileno Pablo Neruda, que escreveu o Canto General, uma homenagem aos povos latino-americanos, por não ter destacado Solano López como um dos eternos heróis desta região do globo!
 Afinal de contas, essa tese simplista que constitui a essência do livro de Galeno tem como alicerce a seguinte lógica: que um país ou uma região desenvolvida (industrializada, com tecnologia moderna, com elevado padrão ou qualidade de vida, com boas escolas e universidades, com um bom e acessível sistema de saúde, etc.) sempre conseguiu esse feito graças não à produção interna, ao sobretrabalho como diria Marx, e sim à exploração de outros países ou regiões, que por esse motivo são cada vez mais pobres e miseráveis. É a teoria da soma zero, de que numa transação ou numa interação qualquer sempre que alguém ganha ou obtém algum benefício é porque um outro perdeu (ou vice-versa). Em outras palavras, é a imagem de um hipotético bolo – toda a riqueza mundial ou global – que teria sempre um tamanho único e fixo e, dessa forma, se alguém está comendo um pedaço grande é porque os outros vão ter que sobreviver com migalhas. Galeano leva essa imagem equivocada aos extremos, afirmando que toda a história recente (do século XX) comprova que “as desigualdades internacionais crescem a cada ano” (p. 8), como também as regionais dentro dos países latino-americanos, ou seja, que os países (ou regiões) pobres ficam a cada ano mais pobres enquanto que os desenvolvidos ficam cada vez mais ricos. Está aqui, juntamente com a clareza do texto e a pretensão de ser uma história de fato (isto é, um estudo objetivo e racional mesmo que não neutro), a explicação para a o enorme sucesso deste livro em especial entre certa parcela da intelectualidade latino-americana (e também, secundariamente, entre um ou outro “esquerdista” mais panfletário da Europa ou dos Estados Unidos). Afinal, ele consola aqueles que se sentem subjugados ou inferiorizados, ele lhes explica que no fundo eles são “vítimas” e a culpa é sempre dos “outros”, daqueles que estão numa situação melhor. Tanto Freud como Nietzsche já haviam teorizado a respeito dessa “transferência da culpa”, oriunda de “ressentimento” e de um “sentimento de inferioridade”. Galeano também fornece um caminho, ou melhor, uma fuga, que no fundo é comodista: a revolta pura e simples, a militância numa organização ou num partido “anti-imperialista”, como se o simples rompimento com os “outros”, com o capitalismo e com as “potências dominantes”, fosse a garantia para um futuro melhor. Em suma, o futuro nacional desejável, o desenvolvimento econômico e principalmente social não virá do esforço (educação e estudos, investimento em tecnologia, qualificação da força de trabalho), mas sim de uma simples atitude de rebeldia (que os adolescentes tanto adoram!), de um rompimento com os Estados Unidos e com o capitalismo, tal como teria ocorrido em Cuba, que é idealizada neste livro como o grande farol para a América Latina.
É fácil perceber porque esta obra fez tanto sucesso nos anos 1970. Foi a principal década das ditaduras militares no Brasil, no Chile, na Argentina, no Uruguai e em alguns outros países da região. Ditaduras muitas vezes sangrentas, que contavam com o apoio no mínimo tácito dos Estados Unidos em função da guerra fria e do fato de elas supostamente estarem “combatendo o avanço do comunismo”. Ditaduras que reprimiam qualquer forma de pensamento crítico e propalavam um maniqueísmo que no fundo ajudou a promover idéias como esta de Galeano, também maniqueístas mas com o sinal invertido. Era de fato uma época de maniqueísmos, em grande parte suscitados pela realidade da guerra fria e a pretensa oposição dual e radical entre o capitalismo norte-americano versus o comunismo soviético.  Confesso que nessa década cheguei a usar trechos deste livro de Galeano nas minhas aulas de geografia no ensino básico. Como boa parte dos jovens universitários na época, era um fiel simpatizante do governo Allende no Chile (quase tive um ataque cardíaco quando ouvi no rádio sobre o golpe militar de 1973!) e também um simpatizante (embora não tão fiel assim: já tinha as minhas dúvidas) do regime castrista em Cuba. Mas o mundo mudou, o clima intelectual também, novas e arejadas idéias e informações acabaram por se impor. E outras ainda surgirão no futuro, embora de maneira alguma, como apregoam alguns, a mera repetição do passado, das crenças infantis dos anos 1970. Afinal, as pessoas evoluem e todos, em algum (ou alguns) momento da vida, cometem sérios equívocos. O trabalho do intelectual é se manter atualizado, pesquisar, ser honesto e crescer intelectualmente, sem nunca fincar o pé numa posição apriorística e doutrinária, a qual em última instância é uma atitude intransigente e até mesmo comodista. Se é fácil entender o porque do enorme sucesso deste livro nos anos 1970, em contrapartida é difícil compreender a razão pela qual isso perdura até hoje, quando toda a história dos anos 1980 em diante mostrou a sua natureza errônea.
Sem dúvida que idéia central de Galeano tornou-se insustentável frente às evidências empíricas: a diminuição – e não o aumento – das desigualdades internacionais de uma forma geral (salvo exceções) nas últimas décadas, algo facilmente detectável pela análise de qualquer série anual de dados estatísticos confiáveis sobre PIB, renda per capita, expectativa de vida ou principalmente o IDH dos diversos países do mundo (3). Isso sem falar no inegável fracasso do “modelo cubano”, por um lado, e pelo outro o retumbante sucesso de países que se desenvolveram não cortando os laços e sim se integrando mais no mercado mundial – o Japão, em primeiro lugar, depois os “tigres asiáticos” e mais recentemente a China e a Índia. Por sinal, todos os países que conheceram uma real melhoria no padrão de vida de suas populações nas últimas décadas foram economias que se integraram cada vez mais no mercado mundial, em outras palavras no capitalismo global, inclusive abrindo as portas para os investimentos estrangeiros e incrementando (e não diminuindo) suas relações comerciais com “as potências capitalistas”, notadamente com os Estados Unidos. Mas Galeano realmente não se importa com as evidência empíricas, ele apenas seleciona cuidadosamente citações que aparentemente comprovam a sua idéia básica.
Há uma visível escassez e insatisfação generalizadas em Cuba? Galeano não consegue ignorar esse contratempo e acaba “explicando” isso com a afirmação de que é exatamente porque no socialismo todos podem consumir de tudo que faltam produtos! É lógico que ele também culpa o “bloqueio” norte-americano a Cuba como a principal causa dos problemas na ilha (Galeano, pp.51-5). Isso não poderia faltar no seu livro. Mas não deixa de ser curioso o fato de que há uma enorme contradição nessa desculpa. Ou seja, quando os Estados Unidos estabelecem relações comerciais e financeiras com um país o estão “explorando”, mas quando eles cortam essas relações, deixando de investir capitais ou de comprar açúcar, como ocorreu com Cuba, isso passa a ser um “bloqueio” e a principal razão dos problemas dessa nação! Não é uma incoerência? A bem da verdade, esse famoso “bloqueio” [ou melhor, embargo] nada mais é que uma legislação norte-americana de 1962 que proíbe às firmas daquele país, e apenas a elas como é óbvio [já que nenhuma legislação nacional em todo o mundo poderia dizer o que as firmas de outros países podem ou não fazer nas suas relações com terceiros], de terem relações com Cuba ou de investirem capitais na ilha. (Por sinal, isso é algo que há tempos, desde pelo menos os anos 1980, vem sendo driblado pela formação de joint ventures nas quais capitais norte-americanos se associam a grupos de outros países para estabelecerem negócios em Cuba ou construírem por lá hotéis cinco estrelas, em algumas das melhores praias do país que, com o consentimento do governo de Fidel Castro, se tornam particulares e interditadas aos cubanos comuns; oficialmente, a origem do capital não é norte-americana). Em outras palavras, não é e nunca foi um bloqueio tal como o pretendido em 1806 por Napoleão Bonaparte, por exemplo, isto é, obstar os navios de circular num trecho do oceano ou de descarregar em tais ou quais portos. Isso quer dizer que nunca houve qualquer impedimento – nem poderia haver, pois isso seria uma delaração de guerra a todos os demais Estados – para o comércio de Cuba com o restante do mundo. Não apenas com o “bloco soviético”, que durante algum tempo sustentou o país, mas até mesmo com o Canadá, Espanha, França, México, e alguns poucos outros países capitalistas ou com economias de mercado, que nunca deixaram de manter relações comerciais com Cuba mesmo no auge da guerra fria, nos anos 1960 ou 70. Esse comércio não era e ainda não é muito intenso devido não a uma pretensa imposição desse “bloqueio”, mas sim pela fraqueza da economia cubana, que pouco tinha e ainda tem a oferecer (basicamente açúcar, charutos e rum), além de sua escassez em divisas para adquirir produtos desses países.
A popularidade do livro de Galeano, mesmo não sendo mais tão intensa como nos anos 1970, ainda se mantém devido ao crescimento dos regimes autoritários e populistas na América Latina, que em muitos casos fazem uso de uma retórica anti-imperialista para se legitimarem e/ou se perpetuarem no poder. O ditador venezuelano Hugo Chávez, por exemplo, ajudou a promover o livro em janeiro de 2009, ao dar um exemplar de As veias abertas da América Latina como presente ao recém empossado presidente norte-americano Barak Obama. [Por sinal, foi por esse motivo que escrevi estes comentários críticos: vários jornalistas, ex-alunos e professores de geografia me mandaram e-mails solicitando meu parecer sobre o livro. Sem isso não teria sequer relido esta obra que já considerava ultrapassada e até retrógrada.]. Situação paradoxal, pois este livro logrou um enorme sucesso em oposição às ditaduras dos anos 1970 e agora ele volta a adquirir uma renovada popularidade devido às novas ditaduras, que em alguns casos (como principalmente na Venezuela) são até mais repressivas que as que existiram naquela década! Galeano deveria abençoar as ditaduras por, de forma direta ou indireta, alçar o seu livro à categoria de best-seller, por sinal um dos maiores da América Latina durante várias décadas.  Mas na verdade Chávez tem razão ao promover Galeano: este livro com a sua retórica pseudoradical infantil e panfletária (que até Chávez consegue entender!) lhe forneceu subsídios para implantar uma ditadura que se apresenta como revolucionária, como uma oposição intransigente ao imperialismo norte-americano visto como o grande culpado pelos males da América Latina. O livro de Galeano – embora não só ele, pois é parte de um enorme conjunto de obras, panfletos, discursos e escritos jornalísticos pretensamente esquerdistas [alguns até propagados por políticos corruptos que hoje compõem a elite econômica (digamos, os 0,01% mais ricos) da região, por pelegos de sindicatos ou por oligarcas de regiões atrasadas que veem nestas idéias uma forma de desviar a atenção do seu mandonismo, além de outros semelhantes] –, mesmo sem talvez o pretender, contribui para manter o atraso na América Latina. Não é um livro que soma, que incita à melhoria (aos estudos, pesquisas, empreendedorismo – por sinal, algo repudiado como demoníaco no livro –, maior incentivo à produção e à geração de tecnologica, e por aí afora, fatores que indubitavelmente foram e são essenciais no arranque de países como China, Coréia do Sul, Cingapura e outros, que até os anos 1970 eram mais atrasados economica e socialmente que o México, a Venezuela, o Brasil ou a Argentina), mas, pelo contrário, é uma obra que gera ressentimentos, que transmite uma mensagem segundo a qual a “solução” para todos os problemas sociais, econômicos, culturais ou espaciais está na luta, na ferrenha oposição ao capitalismo e aos Estados Unidos. Uma ilusão. Mas uma ilusão perigosa, que mais atrapalha do que ajuda na busca de alternativas para o futuro por parte das nações latino-americanas.

(São Paulo, fevereiro de 2009)
(*) Professor Livre Docente no Depto. de Geografia da FFLCH da Universidade de São Paulo.
(1) Cf. CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II. São Paulo, Cia das Letras, 2007, pp. 106-125. O Autor menciona depoimentos de prisioneiros paraguaios durante a guerra, quando num gesto magnânimo (e também, provavelmente, com vistas a mostrar disposição para o diálogo e o término do conflito) D. Pedro II mandou soltar, que suplicaram para continuarem prisioneiros até o final da guerra, pois com certeza seriam fuzilados por ordem do energúmeno ditador, que não admitia que algum militar paraguaio fosse aprisionado sem resistir até a morte. 
(2) Cf. DORATIOTO, F. Maldita guerra. São Paulo, Cia das Letras, 2002, pp. 95-6.
(3) Sobre esse assunto ver nossa análise in VESENTINI, J. W. Nova Ordem, Imperialismo e Geopolítica Global, Campinas, Papirus, 2003, especialmente pp. 107-134.