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Acadêmico de Geografia UFMT CUA.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

HARTSHORNE

A geografia em questão


         Richard Hartshorne foi professor nas universidades de Minnesota e Wisconsim entre 1940-1970, nasceu em Kittanning, estado da Pensilvânia EUA EM 1899 e morreu em 1992. Deixou vários escritos e influenciou muitos geógrafos e continua a influenciar. Dentre as várias obras, uma é a que vamos estudar aqui: Propósitos e Natureza da Geografia, 2º edição da editora HUCITEC: editora da Universidade de São Paulo, 1978. Com a tradução do professor Thomaz Newlands Neto.
         A geografia que teve inicio na França e Alemanha, passa a ter novas escolas com uma visão além mar, isto enriqueceu a forma de pensar e influenciar muitos estudiosos dos assuntos geográficos. Com uma visão bastante abrangente o autor nos mostra os caminhos por onde a Geografia deve trilhar, mas precisamente o objeto que devemos alcançar com esta ciência. O crescimento e a expansão da Geografia mostrou vários equívocos que esta ciência não tinha conhecimento, talvez por ser muito restrita a um grupo de pensadores bitolados a um certo ambiente minimizado por idéias dualistas. Mas o que é o objeto da Geografia? Quais as questões elementares desta ciência? Estas são as perguntas que objetiva a obra em questão.   Segundo o autor estas não são questões novas, elas remontam a gênese desta ciência, o que não é esperado pelo o autor uma concordância por partes de todos os pensadores deste ramo da ciência.
          Esta dificuldade de estabelecer um objeto para a Geografia e a consciência de uma dicotomia dentro do universo intelectual geográfico, leva o autor a conduzir os estudiosos em Geografia a refletir alguns pontos de dificuldades acadêmicas, que diz respeito aos métodos empregados para a produção científica geográfica. Este propósito de estabelecer um paradigma, faz com que o autor remonta aos pais da Geografia e trás a baila a discussão o entendimento do objeto da Geografia. O que é diferenciação de áreas. Dicotomia da ciência geográfica: física e humana. Estas são as questões básicas para a obra onde o autor busca uma análise profunda da compreensão da matéria.
         A questão primeira, entendimento da diferenciação de áreas. Na concepção de Hartshorne, é que região não é algo dado (como para La Blache), mas sim, um contínuo  produto de algo buscado no espaço geográfico, isto é, uma busca das causas nas manifestações humanas no espaço e, sobretudo, nas dinâmicas da natureza, ou ambas. Nisto o autor nos leva a entender que a Geografia não é somente a ciência dos lugares, de uma simples descrição, mas complexa, de uma profundidade que as vezes não tomamos conhecimentos. Os conhecimentos da Geografia partem de uma interdependência dos lugares, e estas conexões forma uma teia que nos fornece dados que com um simples olhar não conseguiríamos enxergar. O obvio é que ninguém consegue apreender todo conhecimento de uma determinada área, mas a relação entre elas, ou a diferenciação delas é um objeto de estudo do geógrafo. Mas segundo o autor, “Quaisquer que sejam os pontos de vista por nós sustentados a respeito da natureza e do âmbito da Geografia, não resta dúvida que todos havemos de concordar que a finalidade dessa disciplina é ampliar o conhecimento da realidade por parte do homem.’ Observe aí que o autor coloca que a Geografia vem para preencher uma vontade do homem em conhecer seu espaço, e neste intuito é impossível ter todo o conhecimento do espaço vivido pelo homem.
          O autor aborda a questão do espaço do homem, onde é o limite deste espaço? Então ele dedica um capitulo todo para entender onde se limita o objeto da Geografia,  é na “Superfície Terrestre” que encontra o homem, e para o autor só existe a ciência porque existe o homem, que é o grande interessado do conhecimento. Mas o termo mundo, que foi pensado como de grande abrangência por Kant e Lehmann, não abarca uma expressão tão abrangente e restrita ao mesmo tempo. Para o autor as grandes diferenças de áreas passam principalmente por uma questão de correlação entre elas. As conexões existentes passam pelo crivo do homem, onde este pode interferir na existência ou não de um relação. Como o meio natural é uma grande fonte de vida onde o homem também é inserido, e isto é uma questão cultural de um lugar que interessa ao homem, passa a fazer parte deste todo,e tudo que afeta este meio natural, afetará o homem. Agora os recursos naturais, são na verdade avaliações culturais daquilo que nos é primordial para a garantia de permanência como os detentores do poder neste meio natural, e isto  é uma questão de sobrevivência, ou então o home estará fadado ao desaparecimento em nossa própria ignorância no afã de permanecer por cima nesta relação de poder. Diante disto o autor coloca em cheque o determinismo da natureza pregado por Ritter. Ora a natureza é um espaço difícil de ser entendido sem a presença do homem. Segundo o autor a Geografia é antropocêntrica. “... até mesmo nas partes desse mundo em que não há homens, é encarado como o mundo dos homens.”
          Portanto conhecimentos produzidos por viajantes, por pessoas que fiseram uma simples descrição, se distinguem do geográfico, porque os simples viajantes tendem a terem olhares verticais, ou seja, óticas de análises viciadas que, perdem elementos importantes e determinantes de conclusão de algo. Estes olhares podem estar carregados de tendências, o qual não pode analisar e conceber o desconhecido aos olhos, conhecimento empírico, somente. Nesse sentido, não sendo bem esclarecidos na busca do real e total, como os viajantes geográficos. Portanto, se distingue pelos seus métodos de análise e perspectiva, como por exemplo, que, por conseguinte, se distingue pela suas técnicas, porque os conhecimentos geográficos dividem as partes para compreender os equilíbrios e desequilíbrios gerais, usando o método da associação e comparação que chega a resultados mais integradores, isto é, amplos e horizontais. Já, os simples viajantes se prendem a metodologia minuciosas que, sem querer, se vêem tradicionais, a saber, sem críticas marcantes com resultados da viagem de estudo, daí são uns coletadores de informações prontas sem nenhuma novidade intelectual.
         
            O autor  revela, ou nos coloca, conceitos elementares para a regionalização, pois ver a necessidade de associar e localizar os espaços numa realidade ideográfica, analisado nas observações dos fenômenos naturais e, sobretudo, sociais nas regiões da superfície terrestre. Contribuindo para a Geografia e seus profissionais, nas suas visões horizontais, amplas, não ficando preso e, por conseguinte, minucioso e intolerante com as contínuas mudanças das aplicações geográficas dentro das variáveis realidades no espaço e tempo, (mesmo no contexto da Geografia Tradicional). Desenvolvendo, nesse sentido, conceitos relevantes sobre “áreas” e de “integrações”. Portanto, com Hatshorne temos a importância de entender a área com possuidora de múltiplos processos integrados, dando-as capacidade de nos colocar informações de caráter infinito, ou melhor, observando que as inter-relações são fontes inesgotáveis. E, que o conjunto de todas as inter-relações possíveis daria o caráter esclarecido da área, porém salientando que, entender todos os sentidos dentro dos contextos das sociabilidades e das interfaces do homem em detrimento da  natureza das inter-relações dos fenômenos, é impossível e cansativo e penoso, logo sendo anticientífico.
        O que Hartshorne nos coloca com relação a dicotomia da Geografia é bastante claro que sua posição é de uma ciência sem uma divisão entre física e humana. Para embasar seus argumentos o autor baseia em vários autores anteriores que versaram sobre o assunto. Seria a Geografia uma expressão máxima da ordem intelectual, representando no mundo das idéias um ornitorrinco?  As formas de ver esta ciência como um desafio para entender o mundo, e neste caso, segundo o autor, na sua afirmação: “ A crosta da terra, que constitui, somente ela, a matéria unitária dotada de real totalidade de organização, é formada de partes inextricavelmente interligadas, não só de terra, ar e água, mas também de plantas, animais e homens; campos, sebes, celeiros e casas; estradas, trens, livros e sons transmitidos pelo rádio. Todos esses aspectos animados e feitos pelo homem são intrincadamente constituídos de vários fragmentos de materiais sólidos, líquidos e gasosos, provenientes de formas inanimadas. Por conseguinte, se subtrairmos desse conjunto o homem e todas as suas obras, o que restará há de ser algo menos do que a totalidade da terra inorgânica. Será uma abstração mental, destituída de coerência na realidade.” Como vimos o autor deixa claro a participação ativa do homem na construção do termo mundo, e para tanto, segundo o autor, não há uma divisão entre Geografia Física e Geografia Humana, a coexistência destas duas versões só consolida a ciência como o espaço geográfico levando em consideração o homem, agente ativo no espaço, um dos responsáveis pelas mudanças na paisagens. Logo com isso o determinismo não entra nesta análise de conceito. Já que neste a natureza determinará a qualidade e modo de vida do individuo homem
        O que será o espaço concebido na Geografia? O que é território? O autor salienta bem estas duas perguntas ao descrever com precisão tênue, a relevância de buscar conceitos, ou mesmo explicações, para a realidade presente. O tempo em Geografia não é uma questão fundamental como para física, para a Geografia o tempo é apenas um pano de fundo para dar respaldo a um entendimento mais complexo de caráter permanente. O que mais intriga os geógrafos é o fato de ter que estudar tempo geológico para entender o caráter de espaços habitado pelo homem. Para Hartshorne o tempo pode ser importante para Geografia para entender, ou delimitar, o espaço de tempo em que se configura o presente, ou um tempo anterior ao estudado, ou ainda a conseqüência que este tem em cima de uma pesquisa para determinar possíveis erros. Este tempo pode e muito confundir alguns geógrafos para um lado perigoso de nossa disciplina, a condição de estudarmos o espaço levando em conta o tempo  histórico do homem, e não o tempo geológico. “ Para determinar as tendências do presente cumpre examinar o curso das mudanças através de um certo período do passado, comumente mais longo do que o exigido para medir as outras características do presente.’ Observe que para o autor parece de pouca importância o que aconteceu a 500 milhões de anos atrás, o que nos mostra é que o meio de entender o presente passa obrigatoriamente com o passado.   

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