Uma pessoa sempre em busca do novo, assim o conhecimento é a janela de onde vislumbro o mundo.

Minha foto
barra do garças, mt, Brazil
Acadêmico de Geografia UFMT CUA.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sociologia do saber
Mágdiel Martins Ramos [1]
CHARLOT, Bernard, Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Tradução Bruno Magne. Porto Alegre:Artes Médicas Sul, 2000.
         Para podermos entender, ou mesmo, estudarmos as relações com o saber, se faz necessário o entendimento de uma sociologia, psicologia e a antropologia que tem ferramentas para entender o homem como um ser social. Para pensar epistemologicamente o fracasso escolar, que autor coloca como sendo um equívoco de interpretação, temos que levar em conta todo um contexto do objeto em estudo.
         Com o objetivo de elucidar a questão do “fracasso escolar” Charlot faz uma pesquisa na França, país do autor, que o leva à várias constatações. Tendo a relação com o saber e o aprender clivado pelos vários autores que ele mesmo cita em sua obra. Mas para fundamentar sua constatação, ele parte de vários pressupostos que explicava a relação do aluno com mo novo mundo do saber e usa essas teses como vitrine para enxergar o lado obscuro da ciência em ralação ao aluno em estado de fracasso.
        No capítulo um, ele, o autor, parte de um princípio bastante controverso, pois usa a idéia do fracasso escolar como sendo uma explicação por parte dos pesquisadores para se safar de uma responsabilidade e inculcar esta a outro que no caso está sendo vítima de uma política não eficiente para promover o ensino/aprendizagem. Com isto o autor coloca que o simples fato de constatação de um aluno que não consegue acompanhar a turma, seja um fato de fracasso escolar. Para poder explicar Charlot usa várias correntes da sociologia: uma mediática, outra da diferença, outra do sujeito, e também lança mão da psicologia. Mas para entendermos a obra, o autor nos coloca o seguinte: “A questão do fracasso escolar remete para muitos debates: sobre o aprendizado, obviamente, mas também sobre a eficácia dos docentes, sobre o serviço público, sobre a igualdade de chances, sobre os recursos que o país deve investir em seu sistema educativo, sobre a crise, sobre os modos de vida e o trabalho na sociedade de amanhã, sobre as formas de cidadania, etc.” Então somos levados a pensar que a questão não é simplista a ponto de está acabado a discussão. Para o autor, que pela a sua pesquisa descobre que a culpa do fracasso escolar sempre é do aluno (quando fracassa, o aluno é ruim, quando tem sucesso é mérito do docente, escola, sistema, projeto, etc.), o fracasso escolar é um objeto que não existe, parte de uma idéia em que é mais um termo concebido por pesquisadores que usam a experiência e a prática, e, dá o nome a uma situação não fácil de explicar. Por isso o mais cômodo é aplicar este termo para simplificar a pesquisa enveredar por outros caminhos. Então o autor usa uma exemplo de uma turma que havendo a maioria da sala recebendo nota baixa, não caracterizava um fracasso escolar. Mas ao passo que esta mesma turma a maioria tirasse notas excelentes, a minoria seria um fracasso escolar. Com esta exposição entendemos que o fracasso escolar é uma atribuição à minoria, e nunca à uma hegemonia de estudantes.
       No capítulo dois o autor coloca o pensamento da sociologia da diferença,ou mesmo da reprodução, onde o pensamento e a origem genealógica de um em relação ao outro é que vai determinar o fracasso escolar. A situação torna muito mais social, pois a estratificação social fica clara nesta corrente como sendo a vilã de todas as desgraças na vida de um menos favorecido. Mas como explicar o sucesso de uns poucos privilegiados? Que mesmo em situação de fracasso escolar se sobressai e muda a “predestinação” social imposta por seus antepassados? O fato é que mesmo explicando às maneiras da sociologia da reprodução, existem lacunas não respondidas, que nisto que o autor vai ser enfático em dizer que o “fracasso não existe, existe sim situação de fracasso”, que é bem diferente se explicado à luz do autor. Mas como que passa um fracasso de pai para filho como sendo uma herança de capital? O autor argumenta assim: “Por mais interessante que seja, a análise do fracasso escolar em termos de diferenças de posições não pode integrar todas essas dimensões. A análise em termos de relação com o saber procura fazê-lo.” A preocupação do autor em detalhar a doutrina da sociologia da reprodução afim de explicar que “a origem social não é a causa do fracasso escolar” nos mostra que falta elementos social e estruturais para podermos afirmar uma correlação assim, pois o termo reproduzir dá-nos uma idéia de cópia fiel, o que foge a avaliação do autor. Ele, autor, debate com seus interlocutores citando-os, e os refutando, colocando uma análise do comportamento do alunato frente as suas dificuldades impostas pela sua má sorte de aparecer em uma classe social de base. Parece que o autor aborda uma tônica de transferência de culpa aludindo as causas. Será que haveria uma culpa em algo que não tem uma culpabilidade explica? É aí que o autor defende a idéia de estudar  as transições dos motivos de uma situação de fracasso.
       Mas para um aluno que está inserido em uma sociedade, não basta analisarmos este como sendo uma coisa, e sim como sendo um sujeito que tem como prerrogativa ser um ser dentro de um contexto já definido antes dele nascer. Este é o que o autor discute no capítulo três. Ele, o autor, cita Durkheim e  Bourdieu para fundamentar sua análise de como um sujeito é social e excêntrico ao mesmo tempo em que analisa os agentes de socialização do aluno. O mais íntimo de um sujeito é um reflexo do outro. O autor coloca em seu texto a dificuldade do sociólogo em estabelecer seu objeto de estudo, par isso coloca a posição social como fator determinante para a promoção social. Entenda posição social, como o modo pensante do sujeito de si mesmo. A subjetividade do indivíduo é a mola mestra da sua concepção de sujeito. Logo a estratificação social fica sem objetivo frente a uma caracterização de uma psicologia do pensamento altruísta. A colocação do aluno como um sujeito da ativa leva-nos a crer que o comando do fracasso ou do sucesso está na relação em que o sujeito cria com sua subjetividade, e não como foi herdada uma posição social na classe predeterminada por alguém (antepassados). Como poderemos pensar a escola como sendo uma sociedade regida por uma regra tão rígida que o que foge dela, regra, é estranho, e portanto passível de sofrer exoneração? Mas para Charlot o comando do saber é dado pelos alunos como sendo atores de uma construção do saber. Ora o conceito de subjetividade pode ser extrapolado a uma dimensão superior do saber, se para um sujeito a articulação pode gerar uma experiência, para outro a experiência gerará uma dada subjetividade contrária à do outro sujeito. Para considerar um sujeito social e ao mesmo tempo singular, temos que analisar a subjetivação e a socialização. Para aquela a subjetivação é o ego em detrimento do social contrário a sua vontade, para esta a socialização em detrimento do egocentrismo. O aluno sempre irá espelhar em alguém para determinar seu objetivo, então o “fantasma” do outro é um sinalizador de uma meta,  pois o sujeito é um ser social desde a mais tenra idade, Charlot cita Wallon, “O indivíduo, se ele se reconhece como tal, é essencialmente social; o é, não em conseqüência de contingência externas, mas, sim, de uma necessidade íntima; e o é geneticamente”, está aí, o ser para ser indivíduo necessariamente tem que ser social. É por aí que o autor vai explicar a relação do aluno com o mundo é que irá determinar seu sucesso ou seu fracasso.
      Já no capítulo quatro, a abordagem de uma conduta antropológica nos fará entender o porquê do aprendizado para uma boa socialização. Se “nascer é penetrar numa condição humana” que já está imposta, o aprendizado é um objetivo de todos que nascem neste mundo social. Para entender  esta gênese o autor coloca o sujeito em comparação com os animais: os animais já nascem prontos, mas os humanos nascem inacabados e por isso mesmo precisa de um retoque, e este retoque é a conquista do saber, do aprendizado.  Se está inacabado é porque alguém tem que o acabar, e este alguém é quem já está, ou já trilhou por este caminho, no caso o professor, os pais, os irmão mais velho, todos aquele que farão parte de seu círculo de trocas de conhecimentos. Mas para haver educação, tem que haver consentimento da parte do educando, ou se não a intencionalidade será quebrada.
        Para apropriar do saber, são várias as formas: o conhecimento de alguma coisa, ou como isto ou aquilo funciona, como dirigir um carro, ou mesmo nadar. Tudo isto parte de um pressuposto de que alguém jaó sabia. Mas há aprendizado que somente o aprendendo é conhecedor de tal fato, mas volta a questão, para chegar a tal pensamento alguém teve que inquirir sobre algo e é a partir deste pressuposto que parte a vontade de aprender algo. Então, todo saber é concebido a partir de outro pensamento.” Não há saber que não esteja inscrito em relações de saber. O saber é construído em uma história coletiva que é a da mente humana e das atividades do homem e está submetido a processos coletivos de validação, capitalização e transmissão.” Diz Charlot. Logo vemos que o saber nunca é egocêntrico e sim coletivo, e pautado num crivo de análise externo ao aprendendo.
        Para aprender é preciso haver um desejo, que o moverá para a busca, ou um pulsão que o dinamizará para uma inter-relação com o outro para promover um conhecimento. Para a análise, este livro é bastante contemporâneo, o que o torna uma ótima pedida. Quanto a liguagem, ela é bastante técnica, o que exige uma pré formação, ou uma vida de leituras assíduas. O ponto negativo, é que o autor por ser francês, cita muitas obra que nos é desconhecida.


[1] Acadêmico de Geografia UFMT/ICHS, Uniaraguaia